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quinta-feira, 11 de junho de 2009

ASSÉDIO - mini-série em 2 episódios


"E as putaria?"


Era quase meio-dia de uma primavera bem quente. Sol a pino e eu andando no Centro da cidade, suando em bicas, fazendo algumas comprinhas. Na verdade eu até já carregava algumas sacolas, o que tornava a situação ainda mais desconfortável. Nada mais desagradável do que jeans suado grudando nas pernas com os braços igualmente suados pelo contato das alças das sacolas.

O fato é que a fome, o cansaço e o abuso típicos desse horário já começavam a interferir no meu raciocínio (para onde ir agora? o que ainda falta comprar? ai meu deus, Miranda vai me matar - sim eu estava no horário de trabalho e deveria retornar o mais breve possível, pois Miranda é implacável com pontualidade e as compras, por mais belas que fossem, infelizmente, não eram para enfeitar meu guardar-roupa).


Bom, depois de algum esforço e muita pressa, consegui finalizar a parte mais árdua da missão e quando já estava a caminho do trabalho, uma figura cruzou meu caminho, me encarando descaradamente e eu, ingênua que sou, devolvi o olhar buscando no minha memória já afetada pela fome, algum indício que me revelasse a procedência da criatura.


O ser era um pouco mais alto que eu, magro, dentes grandes, marcas de espinhas na cara e usava um boné já gasto pelo tempo em completo desacordo com as outras peças de roupas, que eu já nem lembro mais como eram. Sei apenas que dos dentes jamais esquecerei. Eram blocos grandes e amarelados, alinhados numa boca de lábios grossos e manchados pelo sol.

No entanto, antes que meu banco de dados pudesse apontar um resultado concreto e confiável, o sujeito se aproximou de mim e me cumprimentou. Ainda hoje me pergunto com que agilidade ele conseguiu achar uma das minhas mãos no meio de tantas sacolas. O fato é que durante o cumprimento, ele fez aquele gesto mínimo com o dedo indicador, roçando-o sutilmente na palma da minha mão, revelando naquele momento o que ele queria, mas que eu só entenderia bem depois. O diálogo que segue abaixo transcorreu sem que eu desce uma única palavra, pois ele emendava uma frase na outra, sem me dar tempo sequer de raciocinar a resposta. Tudo ocorreu muito rápido, como se a conversa não fosse entre mim e o rapaz, mas entre seu dedo e minha mão, que se mantiveram em contato durante toda a conversa.

- Dedo dele - E aí, beleza? (Minha Mão pensa: "De onde eu conheço você?")

- Dedo dele - Tô trabalhando por aqui agora... (Minha Mão pensa: "Eu conheço você?")

- Dedo dele - E aí, tá namorando aquele moreno ainda da boate?... (Minha Mão pensa: "Como ele sabe que meu namorado é moreno? Espera, eu nunca fui pra boate com meu namorado!").

- Dedo dele - Tá fazendo o que agora? Vamo ali... (Minha Mão pensa: "Qual a última vez que eu fui à boate?... Ali onde?!")

- Dedo dele - E aí, curte o que?... (Minha Mão pensa: "Pra que esses dentes tão grandes?!")

- Dedo dele - E as putaria? E as putaria?! Vamos ali... (Minha Mão não pensa)

- Dedo dele - Ativo ou passivo?! (Minha Mão se solta e eu, finalmente, me pronuncio).

- Alma Flex: Aaah! Dá licença!

E saí, dando as costas apressadamente, nervosa, quase derrubando as sacolas todas. Só pensava em chegar num lugar seguro para lavar as mãos. Quando finalmente me recuperei do imprevisto, danei a rir, achando graça da situação. Nunca havia me acontecido algo parecido. Era tão improvável que aconteceu! Miranda até hoje me pergunta "E as putarias? E as putarias?" e eu torço para nunca mais encontrar um dedo tão ligeiro nem dentes iguais aqueles.


A Gay diz:

1) Precisa?!

2 comentários:

Unsex me disse...

Hum... ñ sei se precisa Alma, mas como as coisas estão tão explicitas hoje em dia, jantar, flores e flertes para quê?

Ah, ótima ideia em ter lavado a mão, quero nem imaginar de onde ele veio antes de pega-la...

Flora disse...

Amiga, quando vc começou a estorinha já tava imaginando onde o "dedinho" dele tinha ido parar...

Imaginei a senhora dizendo: francamente!!!! Essa tb foi boa!