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quinta-feira, 18 de junho de 2009

ASSÉDIO - mini-série em 2 episódios.


"Francamente!"

Eu já estava atrasada para ir ao teatro. Naquela época ainda não possuía carro e morava longe do centro. O fato é que pegar ônibus dia de sábado na direção do centro é uma tarefa para poucas corajosas. E sem modéstia alguma, sou uma delas! Como não estava tão tarde, dispensei a idéia de ir de táxi e optei por esse veículo coletivo, do qual, embora muitos não acreditem, eu adoro usufruir. O que estava em jogo era uma bela programação Cult que havia combinado com algumas miguxas e meu namorado, digo ex - porque um dia as coisas precisam ser ditas e tudo se transforma. No meu caso, sempre para melhor. Ainda hoje preservamos a amizade!


Voltando ao caso... O ônibus partia no sentido Litoral Norte - Centro. Peguei o de número 174, lembro como se fosse ontem. Tenho essa mania de decorar o números nas coisas. Ao subir, percebi que mesmo não estando lotado, todas as cadeiras estavam ocupadas e a aventura já começava com uma dificuldade que exigia muita atenção, pois o risco de sujar o figurino no ônibus quando estamos em pé é bem maior - nunca se sabe quem passará por nós com uma sacola de peixe fresco ou banhado à lama.


Para minha alegria, numa parada mais à frente, vagou uma cadeira do lado do corredor e eu prontamente me apossei dela. Pura sorte, porque antes do meio do caminho, repentinamente, uma leva de gente subiu no ônibus e aí sim era possível denominá-lo LOTADO! E nessa mesma leva de gente encontrava-se o meu algoz, o infame, o ser vil e repugnante que tentara se impor sobre minha pessoa de maneira asquerosa e pesonhenta! Ai, como é difícil expurgar certos fantasmas! Mas sei que há força em mim e chegarei inteira até o fim dessa história... Respira, Alma, as leitoras torcem por você! Vamos lá!


Ele era alto, moreno, forte, porém menos musculoso e mais obeso, transitando na faixa dos 40 a 50 anos, barba por fazer, cara de pervertido, pessimamente vestido e um hálito de cachaça medonho. Tirando o bafo e o mal gosto para roupas, não tenho nada contra nenhuma dessas características, mas acontece que realmente nesse caso a equação não foi feliz em seu resultado e o conjunto da obra, acreditem, despertava certa repulsa.


Estava eu bem sentada, super comportada no meu humilde assento, longe da janela, preocupada com a hora do compromisso. E ele bem ali, em pé, ao meu lado, me olhando do alto. Em determinado momento, senti sobre mim o peso daquele olhar e procurei a origem daquela terrível sensação de estar sendo observada. Minha intuição me levou direto ao seu olhar, o qual não encarei por mais de 3 segundos. Voltei aos meus pensamentos e, sentindo certo receio, na busca por segurança, resolvi ligar para meu ex-namorado, como quem não quer nada, só para saber se ele também já estava a caminho do teatro. Talvez, inconscientemente, tentando mostrar que eu não estava de todo só no mundo.


Bastou eu desligar o telefone e a perna do sujeito encostou na minha, o que me fez olhá-lo novamente, muito mais por impulso do que por vontade própria. Acreditando se tratar de um incidente causado pelo solavanco do ônibus, recolhi ainda mais minhas pernas para o lado do assento. Resignei-me. Restava-me apenas aproveitar o trajeto da viagem até meu ponto de chegada.


No entanto, para minha triste surpresa, o ônibus da mesma maneira que se viu lotado, subitamente esvaziou, inclusive o lado da janela do banco em que eu estava sentada. Nossa, em outras ocasiões eu não pensaria duas vezes antes de pular do corredor para a janela, mas algo me dizia que eu deveria permanecer onde eu estava e como sou uma jovem obediente, especialmente quando se trata das ordens da minha voz interior, resisti bravamente à tentação de levar vento na fronte.


Os assentos à minha frente também vagaram e eu pensei, esperançosa que sou, "acho que esse sujeito em pé ao meu lado se sentará na cadeira em frente!". Ledo engano. Minha intuição estava certa sobre a criatura que, tão logo me viu solitária naquele assento, mesmo percebendo que eu não iria mudar para a janela, ignorou o banco à frente e sentou-se ao meu lado. Gelei. Ali eu me dei conta de que algo não estava certo, menos essa sensação.


Bom, mal ele sentou e foi logo puxando assunto. Dessa vez, apesar da situação ser mais inibidora que a primeira narrada no meu post anterior, eu consegui me expressar verbalmente. E, claro que meu pensamento manteve-se a mil. O diálogo foi exatamente esse:


- ELE: Tava falando com a namorada no telefone?


- EU (me fazendo de surda, falando num volume mais alto, para tentar inibir o interlocutor): É o que?!! (E penso: caralho!).

- ELE (sem dar a menor importância para a minha tática, com um sorriso nojento no rosto): Ficou com medo quando encostei minha perna na sua?!

- EU (penso: então foi de propósito?!! Canalha!. E me tremendo todo, falo, sem conseguir encará-lo): Não! Por que?! (E penso: ai meu Deus, ele vai matar geral! Me dei mal!).


- ELE (passando a mão sobre minha perna): O que foi?... Você não gosta?!


- EU (sem acreditar, sentindo um misto de medo e indignação, restou-me dizer apenas um sonoro): Francamente!


E mudei bruscamente de lugar, me dirigindo para um assento do lado oposto no ônibus, onde permaneci até a hora de saltar, torcendo para não sofrer outra abordagem e, mais ainda, para não ser seguida quando descesse do ônibus, o que eu teria que fazer muito em breve. Se imaginar correndo feito louca em pleno centro da cidade numa noite de sábado, fugindo de um tarado, não é algo que se espera fazer antes de assistir a um espetáculo de teatro. E, provavelmente por ordem divina, não foi o que eu fiz.

Meu anjo da guarda segurou o sujeito no ônibus e o manteve lá até eu chegar em lugar seguro. Ao encontrar minhas miguxas e meu amado namorado, compartilhei meus instantes de perigo, sofrimento e angústia, sendo prontamente confortada e consoloda. Felizmente, recuperei-me do susto e a programação da noite não foi comprometida, ocorrendo tudo como planejado. A peça era ruim, mas as companhias eram ótimas.

De lá para cá, e isso já faz um bom tempo, não passei por nenhuma outra situação semelhante. Que bom, né? Acho que aprendi a fugir de possíveis ameaças, andando sempre por locais iluminados, de preferência bem acompanhada e com um bom spray de pimenta no bolso.


As Gay diz:


1) Spray no bolso e lubrificante na bolsa! Vai que eu confundo.

2) Quem sabe ainda sou uma garotinha, esperando o ônibus...

3) Não acreditaram que falei "francamente"! Mas eu falei!

4) Me auto classificando, eu sou do tipo Mily. Mily & 80: boa, porém letal!

6 comentários:

Dora Flex disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

adoro o jeito que vc escreve!

te amo, minha irmão querida!

Anônimo disse...

Gente, eu me lembro dessa história!

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

E, até hoje, minha parte preferida é o "Francamente..." KKKKKKKKK

Beijooooo!

Alma Flex disse...

São umas fofas, vocês! Amooo!

beijo!

Flora disse...

Amiga, vc acredita q essa semana eu estava me perguntando quando vc iria postar esse estorinha?!!!

Sua cara ao me contar a parte do "Francamente..." ficou gravada pra sempre em minha memória! Daria tudo pra ter presenciado isso!

Eu já sofri algumas vezes esse tipo de coisa no ônibus! Meu problema é q como sou muito boba (Pra n dizer retardada), quando venho perceber o sujeitinho já tem feito a festa! Bicha retardada sofre!!!!

Alma Flex disse...

Imagina se ia deixar essa história passar! Tudo planejado...

Fofa, você!

Unsex me disse...

Fico pensando, pois essas historias só são excitantes para mim, em minhas fantasias, mas na "vida real" sempre me assusta...

Mas, FRANCAMENTE, Alma amada, vc só atrae criaturas sombrias heim... Que medo de andar no centro ou no mesmo ônibus que vc! rsrsrs...