Algo como "meu nome é..., nº..., me liga para dizer o seu, ou não" era suficiente. A ideia era brilhante, mais alguma informação e pareceria desespero. Curioso que hoje não parece outra coisa, a não ser: desespero. Quando isso aconteceu a diversão das gay aos domingos ainda era o pagode no saudoso Sem Censura! Para as mimigas mais recentes, esse bar contemporâneo da obstinada Haven, hoje Toy, ficava num galpão em Jaraguá entre o Orákulo e a esquina do cruzamento que vai dar no H Club!
Olhei para os lados e, para minha felicidade ninguém me surpreendera escrevendo tal bilhete. E nem poderiam. Estavam todas entorpecidas pela cerveja gelada em suas mãos e pela música desafinada e ensurdecedora de mais uma dessas bandas "Coisas do Pagode". Sim, falo isso com certo despeito, porque apesar de não ser apreciadora assídua de um pagodão, sempre tive uma pontinha de inveja das gay que tem coordenação para um requebrado. Agradeci à garçonete pela caneta, dobrei o guardanapo e segui à procura das mimigas com quem estava acompanhada, mas que ao contrário de mim, elas haviam se arranjado e deveriam estar em algum lugar nos fundos do bar. E de fato estavam lá. Uma sentada e a outra de pé, cada qual com seu "alguém da noite". Bom, nessa época, eu era bem mais tímida do que sou hoje e o complexo de patinho feio gritava alto! Ou seja, era certo que eu sobraria. Eu sobrava porque não acreditava em mim, no meu potencial de sedução.
Uma hora da manhã de domingo para segunda. Queria acordar cedo naquela mesma segunda, e por isso disse "tchau!". Mas antes de ir teria que se livrar do bilhete. Entregá-lo ao jovem-de-traços-orientais. O jovem-de-traços-orientais era uma gracinha. Ainda deve ser, não sei, pois ele provavelmente não mora mais aqui. Era uma gracinha, mas tinha a maior cara de entojo. Bicha enjoada, talvez por ser bonita. Mas eu gostava de olhá-lo, algo nele me chamava a atenção. Flagrava-o quase sempre ajeitando o penteado ou dançando com algum amigo. Às vezes ficava sério e sentava-se, para descansar talvez. Mas eu também era flagrada. O jovem-de-traços-orientais também me via. Mas nesses momentos nossos olhares sempre se desviavam imediatamente.
Era óbvia a falta de interesse do jovem-de-traços-orientais por mim, mas isso não me incomodava. Me divertia, inclusive, pois também não fazia a menor questão se o olhar desviava ou não. Eu só queria mesmo conhecer; as pretensões não iam muito além, juro. Toda vez que eu encontrava o jovem-de-traços-orientais, pensava: "gostaria de conhecê-lo".
Enfim, o bilhete já havia sido escrito e estava em minhas mãos. Precisava entregá-lo. O jovem-de-traços-orientais, quase ao meu lado, dançava ajeitando o cabelo que nunca despenteava. As minhas mãos suavam em bicas. Que ideia absurda escrever aquele bilhete, pensava enquanto umedecia o papel com meu suor. Mas agora que o escrevera, teria de entregá-lo. Tinha dúvidas se completaria a missão, tremia. Andei por todo o bar umas cinco vezes, pobre de mim, driblando os casais que pagodeavam ou os dançarinos solitários. Numa dessas vezes, a última, caminhei decidida... À porta de saída. O bilhete nas mãos úmidas. A indicação da saída me convidava tentadoramente para o fim daquela tremedeira, mas aquela não era a melhor saída. Se eu saísse com o bilhete nas mãos, deixando para trás o jovem-de-traços-orientais, não me perdoaria jamais. Minha sorte é que esse pensamento me veio antes de abrir a porta. Sorri e dei meia volta.
Meu passo firme em completa oposição à tremedeira da mão, guiou-me até o jovem-de-traços-orientais. E dessa vez eu não voltaria atrás. Não pensei, fui. O jovem-de-traços-orientais conversava com uns amigos, um deles também era meu amigo. Toquei no seu ombro, mas só como quem pede passagem, e fui direto ao nosso amigo em comum. Olhei com a cara mais lavada (de suor) e disse: "entrega pra ele!". O amigo sorriu. E eu fui embora, sem nem sequer ver o que aconteceu depois. Já não tremia mais e o suor começava a secar. Uma alegria inesperada me dominou. E a porta de saída não apontava mais para uma segunda com gosto de domingo frustrado, podia no máximo receber um trote. Sorria. Percebi o quanto eu era travada, mas depois dessa aventura psico-pagode-dominical, eu me senti tão... Tão viva. Graças à tremedeira. Quando entrei no carro, dei um grito de excitação, alegria, sei lá o que. Aquele bilhete fora o primeiro passo de uma corrida onde eu teria de ganhar. Parar jamais. Voltei para casa disposta com um sorriso estranho de felicidade. Conhecer o jovem-de-traços-orientais já nem mais importava. Entregar o bilhete é que me animava. Significava que meu medo perdera uma batalha, embora a guerra continuasse. Da próxima vez falaria pessoalmente, quem sabe. Hoje o problema com a baixa autoestima mudou drasticamente e a confiança em mim mesma é quem tá no comando!
Curioso é que dias depois fui apresentada ao jovem-de-traços-orientais, mas nunca tocamos no assunto. E se isso acontecesse, o que me restava a fazer era rir! Afinal eu é que não pagaria esse mico de perguntar algo como "Nem me ligou, né, bonito?!". Nos encontramos outras vezes casualmente e trocamos algumas palavras, mas não passou disso, ele sumiu e nunca mais tive notícias dele. O que importa é que de lá pra cá não foi preciso escrever bilhete pra mais ninguém!
As Gay diz:
1) Se adore antes de tudo!
2) Não perca tempo investindo em quem nem olha pra você!
3) Os nomes mudam, as caras mudam, os endereços mudam, mas a diversão das Gay continua a mesma (sábado balada; domingo, pagode).
Olhei para os lados e, para minha felicidade ninguém me surpreendera escrevendo tal bilhete. E nem poderiam. Estavam todas entorpecidas pela cerveja gelada em suas mãos e pela música desafinada e ensurdecedora de mais uma dessas bandas "Coisas do Pagode". Sim, falo isso com certo despeito, porque apesar de não ser apreciadora assídua de um pagodão, sempre tive uma pontinha de inveja das gay que tem coordenação para um requebrado. Agradeci à garçonete pela caneta, dobrei o guardanapo e segui à procura das mimigas com quem estava acompanhada, mas que ao contrário de mim, elas haviam se arranjado e deveriam estar em algum lugar nos fundos do bar. E de fato estavam lá. Uma sentada e a outra de pé, cada qual com seu "alguém da noite". Bom, nessa época, eu era bem mais tímida do que sou hoje e o complexo de patinho feio gritava alto! Ou seja, era certo que eu sobraria. Eu sobrava porque não acreditava em mim, no meu potencial de sedução.
Uma hora da manhã de domingo para segunda. Queria acordar cedo naquela mesma segunda, e por isso disse "tchau!". Mas antes de ir teria que se livrar do bilhete. Entregá-lo ao jovem-de-traços-orientais. O jovem-de-traços-orientais era uma gracinha. Ainda deve ser, não sei, pois ele provavelmente não mora mais aqui. Era uma gracinha, mas tinha a maior cara de entojo. Bicha enjoada, talvez por ser bonita. Mas eu gostava de olhá-lo, algo nele me chamava a atenção. Flagrava-o quase sempre ajeitando o penteado ou dançando com algum amigo. Às vezes ficava sério e sentava-se, para descansar talvez. Mas eu também era flagrada. O jovem-de-traços-orientais também me via. Mas nesses momentos nossos olhares sempre se desviavam imediatamente.
Era óbvia a falta de interesse do jovem-de-traços-orientais por mim, mas isso não me incomodava. Me divertia, inclusive, pois também não fazia a menor questão se o olhar desviava ou não. Eu só queria mesmo conhecer; as pretensões não iam muito além, juro. Toda vez que eu encontrava o jovem-de-traços-orientais, pensava: "gostaria de conhecê-lo".
Enfim, o bilhete já havia sido escrito e estava em minhas mãos. Precisava entregá-lo. O jovem-de-traços-orientais, quase ao meu lado, dançava ajeitando o cabelo que nunca despenteava. As minhas mãos suavam em bicas. Que ideia absurda escrever aquele bilhete, pensava enquanto umedecia o papel com meu suor. Mas agora que o escrevera, teria de entregá-lo. Tinha dúvidas se completaria a missão, tremia. Andei por todo o bar umas cinco vezes, pobre de mim, driblando os casais que pagodeavam ou os dançarinos solitários. Numa dessas vezes, a última, caminhei decidida... À porta de saída. O bilhete nas mãos úmidas. A indicação da saída me convidava tentadoramente para o fim daquela tremedeira, mas aquela não era a melhor saída. Se eu saísse com o bilhete nas mãos, deixando para trás o jovem-de-traços-orientais, não me perdoaria jamais. Minha sorte é que esse pensamento me veio antes de abrir a porta. Sorri e dei meia volta.
Meu passo firme em completa oposição à tremedeira da mão, guiou-me até o jovem-de-traços-orientais. E dessa vez eu não voltaria atrás. Não pensei, fui. O jovem-de-traços-orientais conversava com uns amigos, um deles também era meu amigo. Toquei no seu ombro, mas só como quem pede passagem, e fui direto ao nosso amigo em comum. Olhei com a cara mais lavada (de suor) e disse: "entrega pra ele!". O amigo sorriu. E eu fui embora, sem nem sequer ver o que aconteceu depois. Já não tremia mais e o suor começava a secar. Uma alegria inesperada me dominou. E a porta de saída não apontava mais para uma segunda com gosto de domingo frustrado, podia no máximo receber um trote. Sorria. Percebi o quanto eu era travada, mas depois dessa aventura psico-pagode-dominical, eu me senti tão... Tão viva. Graças à tremedeira. Quando entrei no carro, dei um grito de excitação, alegria, sei lá o que. Aquele bilhete fora o primeiro passo de uma corrida onde eu teria de ganhar. Parar jamais. Voltei para casa disposta com um sorriso estranho de felicidade. Conhecer o jovem-de-traços-orientais já nem mais importava. Entregar o bilhete é que me animava. Significava que meu medo perdera uma batalha, embora a guerra continuasse. Da próxima vez falaria pessoalmente, quem sabe. Hoje o problema com a baixa autoestima mudou drasticamente e a confiança em mim mesma é quem tá no comando!
Curioso é que dias depois fui apresentada ao jovem-de-traços-orientais, mas nunca tocamos no assunto. E se isso acontecesse, o que me restava a fazer era rir! Afinal eu é que não pagaria esse mico de perguntar algo como "Nem me ligou, né, bonito?!". Nos encontramos outras vezes casualmente e trocamos algumas palavras, mas não passou disso, ele sumiu e nunca mais tive notícias dele. O que importa é que de lá pra cá não foi preciso escrever bilhete pra mais ninguém!
As Gay diz:
1) Se adore antes de tudo!
2) Não perca tempo investindo em quem nem olha pra você!
3) Os nomes mudam, as caras mudam, os endereços mudam, mas a diversão das Gay continua a mesma (sábado balada; domingo, pagode).
4 comentários:
Amigas, vocês são tudo-que-há!
E Alma, senti falta das dicas da coleção da estação!
:*******
tudo amei, vcs são ótimas demais!
lindas!
Agora falando sério, essa postagem me emocionou, vc é muito legal em trocar suas esperiencias tão intimas conosco.
gostaria de pedir uma dica, tanto para vc ou para Dora:
O que fazer quando saimos com alguém que não conecemos e este cara é absolutamente lindo, mas quando abre a boca pra dizer um boa noite ele solta uma voz afinada entre a Sandy e a Tete Espíndola?
ah esqueci, pode me chamar de Tigre do Farol. hihihi
Alma, vc tocou fundo... A maioria das pessoas do "meio" em vivemos são tão tolas, tão vazias, tão... Por transitar por diversas fases em meus 24 anos d vida, posso dizer hoje em dia compartilho a mesma situação que você. Olhar para quem olha para você, se adore antes d tudo e tenha medo d quem se preocupa, obsessivamente, com o cabelo!
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